quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Te vejo

Prefiro teu cheiro, nunca manhãs preguiçosas. Prefiro teu corpo,  aos ônibus lotados. Gosto dos teus  olhos bem abertos quando te beijo. Realizo teus desejos, mesmo aqueles com quatro pedras nas mãos. Respiro ofegante ao final da corrida com a matilha dos teus cabelos.                                                                               

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Versões

A História sempre foi vítima de versões, a mais comum é dos vencedores. Mas, os perdedores, também, contam histórias, assim como os omissos, os que lucram, os que ouviram falar. Neste andar sempre aumentam ou diminuem os pontos, as vírgulas. E, quanto mais passa o tempo, mais a roupagem da história se desbota, ou, é renovada pelos interesses de plantão. Gosto do exemplo grego, da ágora, todos os cidadãos reunidos decidindo o os rumos da política e dos negócios. E, do lado debaixo da calçada os escravos, as putas e estrangeiros, em geral só olhando.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Em andar de coisa algo não há                                                                                                                                                                                       Mas, de um jeito                                                                                                tão flamenco que luz e gesto   se fundem no som                                                                                                        de saltos e pedras                                               para além do fundo do ouvido até                                                                            que se desconserta           em mim todo rumo                                                                                       me deixas às vésperas                                            E, o que mais se dirá de ti?

sábado, 10 de dezembro de 2011


Que se fechem todas portas, e, os portões. Que se fechem todos os portos, aeroportos, fronteiras. Ergam-se mais altos os muros, e as grades. Coloquem barreiras em todas as estradas, toas as ruas. Que se faça um silêncio de ausência em todas as casas. Desliguem as luzes, os rádios as televisões. Calem-se as crianças.Que todas as noites sejam escuras, e, sem estrelas. Espalhem-se cartazes de "PROIBIDA ENTRADA", por todas as cidades, e que meu coração se feche, mudo e surdo, frio. Que vague para sempre, exilada de mim, a mulher que eu amo.

A morte é absoluta, nem noite, nem dia Absoluta, a morte, não é silêncio. É, apenas, morte...

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

pensando bem

pensando bem o amor tem umas coisas que nunca ser, segredo por exemplo amor é coisa de crescer invadir, é oceano amor que se cala sufoca e se mostra, de um jeito ou de outro, todo amor é louco amor não se cala, se consente.

domingo, 20 de novembro de 2011

OSVALDO FERREIRA

MEMÓRIAS DO RÁDIO

mama posso ir
PODE
quantos passos
Estávamos no Cambodja
helicópteros despejam
soldados
mama posso ir
PODE
quantos passos
Estávamos no Mecong
Os B52 despejam
napalm
mama posso ir
PODE
quantos passos
Estávamos em MI LAI
os soldados
fuzilam mulheres
mama posso ir
PODE




Poema publicado na revista "O Falares", nº 4, 1995, produzida por estudantes de letras da UFRGS.


***

-


- Uma flor para Lady Enola -



We’re looking trough out

crash helmet's land

When saw white birds

‘nd Enola Gay kissing

the girl with a hat

on her shoulders

E ele tinha os lábios

muito vermelhos

de tanto, que as mães

diziam dela ser puta

Brincamos na água com sabão

no longe, na barra branca

do horizonte, por trás dos varais

arranha-céus. E eu ali...

ali mãe de sangue até os pulsos

bem fundo no teu útero

Enola, Enola, Mr. President

disse que esta noite

os bombards irão dormir

E nós poderemos passear

nas ruas desertas

de bicicleta

O silêncio é um ferimento

que eu quero dilatar


Poema inédito, década de 1980
Título por Adriandos Delima




***

- expresso coffee breakfast -


No chão do quarto
brinco
Estão em greve
no porto de Rio Grande
300 mil dólares de prejuízo
Hot dog milk shake
legiones sunt dominus mundi
um pássaro tece
no chão do sertão
uma mortalha
margarina vegetal
derrete sobre
tua nudez
cheira a orquídeas
região tropical
mãos de barro
amassam taciturnas

Poema inédito, década de 1980.
Título por Adriandos Delima
































































Oswaldo Ferreira é ex-poeta marginal e agitador cultural dos anos 70 e 80, Rio Grande do Sul, Canoas, de diversas influências, entre elas Raul Bopp e e.e.cummings. Leitor de Filosofia, Sociologia, História e a Antropologia, intelectual autodidata, participou ativamente na luta contra a ditadura imposta pelo golpe militar de 1964, tendo sido preso por isto. Vivia como um simples chapeador e pintor de automóveis. Atualmente, está formado em história, tem uma oficina de chapeação e pintura e presta assessoria política.




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